Círculo das Leitoras Peripatéticas





Círculo das Leitoras Peripatéticas:  Galeria Municipal do Porto, Junho 2021


Círculo das Leitoras Peripatéticas [Circle of Peripatetic Readers] is a project by Susana Gaudêncio, Sofia Gonçalves & Susana Pomba. What follows is my contribution to the project in Porto, at the Concha Acústica in the Gardens of Palácio de Cristal/Galeria Municipal do Porto. Each one of the members of the group read her text in a structure of 4 acts. Translation to EN, soon

Acto I


Não é preciso ser muito aventureira, podemos medir riscos, calcular estratégias, mas indispensável é o impulso de dar à arma e iniciar a marcha. Que deve ser sempre marcada por ruído forte. O aviso de começo de corrida. Teme-se algo à distância, reage-se com os músculos das pernas, vamos de encontro ao perigo. Este é o primeiro ato, acabámos de passar os portões de ferro, abertos em jeito de recepção. 

Vamos ler o espaço a andar. Iniciar a marcha, quase sempre decisiva, por vezes desnorteada. De armas e bagagens. Já não víamos as quatro estações ao vivo com plintos sustentando alvos, há tanto tempo. As pernas estão torpes, os músculos atrofiados, os braços fracos. Os pensamentos desviam-se muitas vezes para o interior dos músculos quando estes se esticam e reagem, como num baile no meio da pista onde os tendões se surpreendem pelos movimentos que não sabiam poder fazer, ao som de “Ricochet”, espasmos. Mas por enquanto, a música é o som da gravilha espremida por baixo das solas dos sapatos.

Não passeamos só por prazer, temos objetivos, importantes assuntos a descobrir e a discutir. Temos coisas que se começam a revelar que tememos ao longe, lutas a encetar, mistérios a reagir e a revelar. Temos, plural, porque não estou sozinha, não estamos sozinhas. Encontramo-nos em determinados pontos do caminho, caminhamos juntas em sentido figurado. Registem esta afirmação, porque vou alternar entre o nós universal feminino e a primeira pessoa, feminina.

“Se uma narrativa é a sequência de eventos, então estes jardins de esculturas fizeram do mundo um livro, por situarem estes eventos no espaço real, suficientemente separados para serem ‘lidos’ ao andar (...).” Esta frase é da escritora, historiadora e ativista americana, Rebecca Solnit.

Na língua inglesa existe a expressão, “A Walk in the Park”,  para exprimir algo que é fácil e prazeroso. Vamos colocar a anteceder essa expressão, as palavras “não é”. Prever o pior para receber o menos mal. Não é um belo passeio no parque, até já consigo cheirar a pólvora. 



Começa a batalha contra as representações desnudas da Primavera/Verão, Outono/Inverno, estações de drapeados e tendências de panejamentos. Os primeiros tiros são realizados com um mosquete do século XVI. Sim, uma arma bastante antiga para este século XIX mas, desgraça, era o que tinha à mão. De qualquer maneira, um belíssimo exemplar de uma das primeiras armas de fogo. Coloquem-se os dedos corretos nos orifícios certos da dita arma. Pelo mosquete sai pequena referência à grande ANNA ATKINS. Uma figura pivotal do século XIX, que nasceu no Reino Unido no finzinho do século XVIII e esteve na terra até 1871 (supomos que quando morreu não haviam armas por perto), foi botânica, um interesse “permitido” às mulheres nessa época. E de repente li esta frase assim nas minhas pesquisas: “Anna Atkins é considerada a primeira mulher a praticar a fotografia”. Sim, eu sei, se calhar precisamos de uns segundos para receber esta informação [pausa]. Mas há mais. Atkins, botânica, fotógrafa, fazia publicações e foi a primeira a ilustrar um livro com imagens fotográficas [outra pausa]. Claro, que teve que fazer o dito livro à mão em casa, prova a prova, mas ainda existem cerca de 15 cópias completas e mais umas incompletas. “Fotografias de algas britânicas: impressões em cianótipo” (1843-1853) está na coleção do Met, em Nova Iorque, e utiliza imagens com a técnica fotográfica de Atkins (sim, porque é inescapável, esta técnica é dela)—Cianótipo, um processo de impressão fotográfica em tons azuis. Era através destas imagens que AA (botânica anónima) representava os seus objetos de estudo, neste caso algas. Uma perfeita comunhão entre ciência e arte. O pai Atkins trabalhava no British Museum, e porque Anna perdeu a mãe em tenra idade, a relação com o seu pai era forte, e por isso ela pôde ter acesso a muito mais conhecimento, que não era comum ser dado a raparigas. Ali pelos 20 anos, Atkins desenhou 256 reproduções cientificamente corretas de conchas, que foram publicadas no catálogo traduzido pelo pai, “Genera of Shells” (1822-24) de Jean Baptiste de Lamarck. Conchas. Muito mais tarde, pelos 40 anos, foi-lhe dada uma máquina fotográfica, mas essas imagens não chegaram até nós.



“Genera of Shells” (1822-24)


Cianótipo de Anna Atkins



ACTO II


Largámos o mosquete, como se nos livrássemos da raiva da injustiça de um valor e reconhecimento que é devido, e para além de não dado é de forma consciente retirado. O mosquete ainda rodopiou no chão indicando a direção da avenida das delicadas tílias e do rio. Mistura-se o cheiro, fumete ou fumito do fogo, com a flora circundante. Não há pólvora que chegue para isto tudo. Não há chá de tília que nos acalme. Mas há frutas e usufrutos, esperemos por elas.  

Estamos no século XX, M. S. POMBA GUERRA nascida em 1906 (o mundo levou-a em 1976), foi farmacêutica, escritora, jornalista, tradutora, professora, ativista antifascista e anticolonialista que muito fez em backstage pelos movimentos de libertação das antigas colónias. Tanto que até foi a primeira mulher branca a ser presa pela PIDE em 1949 (eu preciso agora aqui de uma pausa, ela esteve na prisão de Caxias até 1950, durante sensivelmente 6 meses). Para além de todas essas atividades e mais outras, enviava durante os anos 1930 estudos sobre os frutos de Moçambique, para a sua antiga faculdade, a Universidade de Coimbra. Estes estudos eram publicados em boletins, intitulados “Moçambique—Documentários Trimestrais”, a palavra usada era mesmo esta, “documentários”, publicados depois em Lourenço Marques, ou seja, Maputo.


Maria Sofia Pomba Guerra


Para este trecho de M. S. Pomba Guerra podemos nos sentar num dos bancos da avenida, pernas esticadas, braços esticados alongados acompanhando a parte superior do banco, músculos estendidos em tensão, cabeça com ligeira inclinação ao céu. Esta é a introdução de um desses estudos de Pomba Guerra, vou começar, preparem-se: “Nos dias cálidos, de quietação sufocante ou fustigados de esbraseantes rajadas, quando tôda a vontade de acção se esvaece num deixar-correr de indiferença, a polpa sumarenta dos frutos, gelada, envolvendo os mais requintados aromas, é ainda supremo deleite. (...) É inigualável o creme alaranjado, túrgido de sumo doce e perfumado, duma boa manga bem madura, duma papaia ou mesmo ainda da pobre banana, tão desdenhada aqui na sua modéstia ao lado das frutas caras de importação. Se não fôsse a velha verdade de que ninguém é rei na sua terra ou de que a abundância conduz à saciedade e ao desprêzo, nunca a banana se veria relegada para plano de fundo, como fruta de estima, na luta com rivais por vezes bem menos valiosas.”

Saco agora de um bacamarte, arma do século XIX de grande calibre e cano curto mas largo, e dirijo a ponta ao céu, apanho tílias que descendem, apanho pássaros que se escapam num único movimento sincronizado de fuga, brusco, pelas copas das árvores. Com os músculos do braço bem doridos ainda tenho tempo de pensar que M.S. Pomba Guerra assinava assim os boletins talvez para que se assumisse que se tratava de algum homem a escrever, e que por isso em pensamento automático a sua escrita seria levada mais a sério do que se tivesse assinado Maria Sofia Pomba Guerra.

Era a minha tia-avó que nunca conheci mas que aqui presto homenagem e agradeço a emancipação de que hoje tenho usufruto, e como exemplo, este momento exato que assino com nome próprio e último, Susana Pomba. Outra curiosidade, Sofia, que quer dizer conhecimento, era casada com Platão, que dispensa apresentações filosóficas, e acumulou para além disso a mais fantástica combinação de últimos nomes: Pomba, símbolo de paz, e Guerra, o seu exato contrário. E em festejo e homenagem deste e de todos os outros factos, uma salvé à minha tia-avó! Mulher de ciência, letras e lutas! E aqui seguem mais uns tiros de bacamarte para o céu, e mais uma fuga veloz das Pombas à Liberdade. 



ACTO III 


Não sei desde quando, mas colaram à natureza o género feminino: é a “mãe-natureza”, a “mãe-terra”. Foi emparedada com a fertilidade, símbolo de nascimento, de dar vida e por aí fora. Qual Botticelli, qual nascimento de Vénus, qual Uma Thurman no meio da concha. Pensem na quantidade de corpos de mulheres desnudas que andam por aí pelos jardins de esculturas. Não são monumentos à mulher, são apenas uma visão masculina, na verdade minimizadora, que coloca as mulheres no papel reprodutor, no papel de dar beleza nua e jorrar água, no papel decorativo, no papel secundário. Nós humanos somos muito mais do que isso. P.S. Para tempos futuros, que na verdade são já agora a seguir a isto. Temos de nos deixar de comportar como centro do universo. P.S. 2 ­Esta versão binária homem/mulher é limitadora e não-abrangente. P.S. 3 Apontar ao ecofeminismo. P.S. 4 Tenho de referir Gruta, desculpem, Greta Thunberg e a citação, “Our relationship with nature is broken. But relationships can change”. 

Carabina de caça Browning 270, são necessários uns exercícios para estender os músculos do braço direito. A partida para o Lago dos Cavalinhos é assinalada com dois tiros certeiros (não se sabe bem em quê). O lago tem esculturas intituladas “Amazonas a cavalo”—as frutas que essas mulheres nuas carregam jorram-lhes água pelo corpo. O lago é rasteiro, pouco fundo. No final dos anos 1960, a artista japonesa YAYOI KUSAMA (nascida em 1929), uma verdadeira mulher-guerreira, chegou de cavalo branco e pintou a água com bolas vermelhas, cobriu um homem de folhas e plantou-o na terra como se fosse uma semente. Esta descrição é do seu filme experimental de 1967, “Kusama’s Self-Obliteration”. A natureza é o coração do trabalho de Yayoi Kusama, que cresceu rodeada de estufas (o negócio dos pais), campos e ciclos de vida e de morte. As suas memórias são de total imersão num mundo de plantas e flores, que muitas vezes tomavam vida e falavam com ela. Kusama é hoje finalmente a artista blockbuster que merece ser: durante esta primeira metade do ano que corre inauguraram, mais de 3 exposições com o seu trabalho, em cidades como Nova Iorque, Berlin, ou Washington DC. Ela foi pioneira no minimalismo, na performance arte, nos happenings, na pop arte e nas grandes instalações “imersivas”. Isto é excecional nos dias que correm, a arte feita por esta mulher faz as pessoas fazerem filas de horas e horas que dão volta ao quarteirão, para entrarem nos seus “Infinity Rooms”.


“Grand Orgy to Awaken the Dead” (1969)


Kusama incorporou na sua arte, antes de toda a gente, o “publicitar”, a “promoção” (Andy Warhol anyone?) e parte disso estava uma série de happenings que fazia à revelia, sem aviso ou convite. Num dia prazeroso, Kusama e a sua pandilha hippie com corpos pintados com bolinhas entraram pelo MOMA a dentro sem avisar nem pedir licença (o MOMA é só o Museu de Arte Moderna em Nova Iorque), dirigiram-se ao jardim das esculturas (a outro, não este), tiraram a roupa e enfiaram-se no lago e começaram em sessão de making out (esta é uma maneira soft de dizer, imaginem coisas mais extensas), marmelada em cima de uma escultura de bronze. Que representava a escultura? Uma mulher nua! Claro. E de repente a visão de quem se passeava pelo jardim era a de homens e mulheres nus em cima da mulher nua que adornava o pequeno lago do museu. Segundo consta, a artista fez “Grand Orgy to Awaken the Dead” (1969), para protestar a atenção desmesurada que o museu dava aos artistas mortos. Para promover o evento, Kusama escreveu, “no museu podemos tirar a roupa em boa companhia: Renoir, Maillol, Giacometti, Picasso” A polícia apareceu, a orgia terminou. E com mais uns tiros de carabina, os artistas homens brancos acordaram, atarantados, mas logo voltaram ao sono da sua glória em vida e em morte.  


ACTO IV


A história da minha tia-avó anticolonialista e antifascista que nunca conheci não retira de mim a responsabilidade. Não deixo de carregar comigo a nossa história, a nossa história colonialista, como todas já referimos hoje, como todas nós carregamos. Nas palavras de James Baldwin: “A grande força da história vem do facto que a carregamos dentro de nós, somos de muitas maneiras controlados inconscientemente por ela, e a história está presente literalmente em tudo o que fazemos”.

Agora é o pescoço que se vira, esticando-se, dando voltas de 180º em círculo e levando depois os olhos em direção ao palco-coreto. E aqui chegámos. Porque deixámos este lugar para último? Queremos saborear, como se não tivéssemos estado aqui o tempo todo, neste espaço em granito que escolhemos, ladeado por figuras “exóticas” (a palavra é perigosa, eu sei). Andámos pelo jardim, não estivemos aqui o tempo inteiro. Estivemos aqui o tempo em partes. E estas figuras, são femininas claro, cada uma ladeando o palco, uma negra e uma egípcia. Construído talvez no início da década 1880, este coreto em forma de concha tinha uma pintura mural, do tipo “a tentar enganar o olho”, aqui vou abrir aspas, “que faz lembrar o interior de um salão de baile e deixa imaginar os inúmeros concertos e espetáculos que fizeram rir e chorar muitas gerações”, fecha aspas. Vou abrir outra vez as aspas, “Embora não com a frequência de outros tempos, a concha acústica ainda hoje acolhe concertos e pequenos espetáculos teatrais”, fechar aspas. Temo que nós a três não somos e não estamos a fazer, nem um nem outro. Estamos algures nos interstícios dessas definições. 

O que estamos a ouvir, este som do mar, o som destas ondas que se partem aos nossos pés, são para a artista americana KARA WALKER, nascida em 1969, e por causa da sua Fons Americanus, que esteve no Turbine Hall da Tate Modern em Londres até há pouco tempo. A água é um elemento crucial da instalação, para falar do comércio transatlântico de escravos, para falar da história que carregamos. A fonte pública que construiu dentro da Tate faz referência aos grandes monumentos e memoriais, que não contam a história toda, que são monumentos ao poder colonial e que deixam de parte as pessoas escravizadas. Walker repõem essas histórias na sua fonte, e para começar, mal se descia a rampa do museu via-se uma concha, a que ela chamou de “Shell Grotto”, feita à imagem da tradição da história de arte, das ilustrações de Vénus, a deusa do amor na mitologia romana. A mulher branca, nua, centrada numa concha. Só que Walker colocou na concha um rapazinho quase totalmente emergido em água, a chorar, com água a jorrar do canto dos seus olhos em contínuo. Por todos os que contra a sua vontade foram colocados em barcos, por todos os que morreram no meio do oceano ou nas plantações. Walker, reclama para si a imagem da Vénus, na sua versão a Vénus negra (imagem usada como propaganda do comércio de escravos) foi colocada bem no topo da fonte, a jorrar água e ela é a filha das águas, nas palavras de Kara Walker: “The amniotic fluid at the beginning of this journey is now transformed into mother’s milk and lifeblood. Mother, whet nurse, whore, saint, Host, lover—she is the daughter of waters”. 


Kara Walker. Courtesy of Tate Modern


Nos vários estados físicos da água já temos como nosso o líquido, e agora guardemos também todos os outros, e especificamente o gasoso. Para dar início ao baile final, um baile debaixo de água, de celebração, homenagem, e encantamento, vamos precisar de convocar toda a artilharia feminina. Um Enchantment Under the Sea com a decoração adequada, bebidas fumegantes e conchas decorativas que servem de fundo às fotografias que marcam o fim do curso. Este foi o interlúdio, e agora já não chegam armas de cano curto, vamos precisar mesmo de uma Bazuca. Isto é Beyond the Sea, isto é a vontade de encontrar oysters under the sea.   

Maria da Conceição Batarda da Silva Granate, de nome artístico curto e doce, CONCHA, nascida em 1957, é um cantora portuguesa que foi membro da Banda do Casaco, e nos agraciou com alguns sucessos a solo, e esteve na final do Festival da Canção em 1979 ao lado de Gabriela Schaaf e Manuela Bravo. Esta última acabou por ganhar e nos representar nesse ano com “Sobe, sobe, balão sobe”.


Concha no Festival da Canção em 1979

A canção escolhida, destemida e cantada em sopro, é “Qualquer Dia Quem Diria”, e é uma ameaça todos os dias: que perde a calma, que perde a vergonha, que perde o juízo, que corta a trela, que parte as janelas, que perde a paciência, e no meio da rua para toda a gente ver. Apostamos que estamos em frente a uma vitrine que nos espelha e que apesar da canção parecer deixar em aberto o “quando”, “qualquer dia, hoje em dia, quem diria, qualquer dia, qualquer dia”, vamos de bazuca esclarecer aqui e agora, que este qualquer dia é hoje mesmo, vai ser agora mesmo que vamos colocar “o ponto final neste castigo”. Carreguem a bazuca, 3, 2, 1. 

Susana Pomba
escrito para o Círculo das Leitoras Peripatéticas, evento na Galeria Municipal do Porto, Junho de 2021.




Evento do Círculo das Leitoras Peripatéticas na Concha Acústica nos Jardins/Galeria Municipal do Porto, Junho de 2021 (Foto: Renato Cruz Santos)



Evento do Círculo das Leitoras Peripatéticas na Concha Acústica nos Jardins/Galeria Municipal do Porto, Junho de 2021 (Foto: Renato Cruz Santos)



Evento do Círculo das Leitoras Peripatéticas (c/ Sofia Gonçalves & Susana Gaudêncio) na Concha Acústica nos Jardins/Galeria Municipal do Porto, Junho de 2021 (Foto: Renato Cruz Santos)


Evento do Círculo das Leitoras Peripatéticas na Concha Acústica nos Jardins/Galeria Municipal do Porto, Junho de 2021 (Foto: Renato Cruz Santos)